O governo Lula, ou a contradição no poder.

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terça-feira, 23 fevereiro, 2010
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À medida que se aproxima o ocaso do governo Lula, os analistas políticos começam a se perguntar se os seus atuais e elevados índices de popularidade serão ou não corroborados pelo julgamento da história.

Hoje, qualquer tentativa de responder a esta pergunta estaria condenada ao descrédito, pois ainda é cedo para qualquer vaticínio. No entanto, creio que já está na hora, se não de prever o futuro, pelo menos de avaliar o significado, os alcances e os limites políticos, econômicos e administrativos dos dois mandatos de Lula.

O primeiro aspecto a considerar é a trajetória percorrida por ele e pelo PT antes da conquista da presidência pela primeira vez, há quase sete anos..

Nos primórdios da legenda, três décadas atrás, o partido e  o seu líder maior ergueram bem alto duas bandeiras, diante da sociedade brasileira, que então lutava para transcender o regime autoritário e reencontrar caminho da democracia: a do socialismo e a da ética.

No final do século passado, o colapso soviético e a repressão desencadeada pelo regime comunista chinês contra os manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, causariam profundo e definitivo abalo no prestígio internacional do modelo socialista totalitário.

Assim, o PT foi obrigado a atravessar os anos 90 agarrado à bandeira que sobrara: a da ética.

Avocando para si o monopólio da luta contra a corrupção na política, o partido mobilizou todos os recursos de agitação e propaganda dos movimentos sociais a seu dispor – como o baronato da CUT, os invasores do MST e os fieis aliados na UNE – fazendo-os marchar ao ritmo de  slogans como “fora, FHC!”, “Prisão para todos os corruptos” – e assim por diante.

Graças ao cansaço do povo com os sacrifícios exigidos pelo combate às crises econômicas internacionais durante aquela década e também ao incômodo gerado pela ameaça de apagão do setor elétrico no final do governo FHC, finalmente soou a hora triunfal para Lula e seu partido. No pleito de 2002, Lula chegou lá.

Não demorou até que a esperança que vencera o medo se convertesse em decepcionante perplexidade. Uma sucessão de escândalos políticos (waldomirogate, mensalão, aloprados…) evidenciou que a bandeira da ética seguia o mesmo (des)caminho do estandarte do socialismo.

Nada disso, entretanto, foi suficiente para impedir a recondução de Lula ao Palácio do Planalto. Diante de uma oposição tímida e atordoada, ele, mais uma vez, chegou lá, colhendo os frutos da consistente aplicação do receituário macroeconômico legado pelo seu antecessor, enquanto, da boca para fora, xingava a “herança maldita do neoliberalismo”, para delírio do seu público interno.

A chave para o enigma político do lulismo repousa no fato que ele, longe de se enfraquecer com as próprias contradições, delas se alimenta, aproveitando para surfar uma onda aparentemente interminável de popularidade e logrando persuadir os mais díspares segmentos da sociedade brasileira de que pode ser tudo para todos ao mesmo tempo: o escudo protetor da ortodoxia monetária do Banco Central & o patrocinador de uma verdadeira farra de engorda da máquina pública e, portanto, da explosão dos gastos de custeio; o amigo de fé do agronegócio exportador & o irmão camarada do  MST; o governante que, comportadamente, saldou a dívida brasileira com o FMI & o parceiro entusiasta de desastres ideológicos como o socialismo bolivariano de Hugo Chávez, Evo Morales e outros agressores do interesse nacional brasileiro.

No fundo de todas essas antíteses está um governo que é fruto do insólito cruzamento entre as cúpulas sindicalistas e as carcomidas oligarquias que Lula e PT, na oposição, outrora tanto combateram e que agora ajudam a escorar em meio à crise ética que desmoraliza o Senado. O arquivamento, por obra do PT, das denúncias contra José Sarney no Conselho de Ética do Senado e a saída do partido da Senadora Marina Silva e do Senador Flávio Arns é prova cabal desta fato.

Para piorar, o presidente não se dispôs a investir um grama da sua esmagadora popularidade para construir uma sólida agenda de reformas (tributária, previdenciária e trabalhista) cuja inconclusão continua a pender contra o futuro do país.



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